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1

Quando acordo, dói um pouco. As manhãs sempre começam antes da hora. É como se o sono fosse um cochilo de uma noite não dormida. Vou e volto resistindo à entrega do tempo que preciso manter. Cada segundo guarda uma infinidade de pendências que parecem aumentar à medida em que, nelas, penso, tornando, o pretendido descanso, impossível no tempo que tenho. As horas passam. A noite passa. E eu acordo com a dor de um corpo atravessado pela necessidade do despertar.

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4

O pombo não vê o garoto. Ele caminha. Projeta a cabeça para frente e para trás no ritmo do mover de suas delicadas pernas, marcando, na fina areia, pegadas de flores. Ele cisca. Passeia de um lado ao outro procurando tudo aquilo que pode encontrar. Mas não encontra o garoto.

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2

Chegou em casa exausto. Tinha, naquela noite, trabalhado um pouco mais do que estava habituado. Não eram as demandas. Era a necessidade. A necessidade de não deixar pendências para o dia seguinte. Porque não haveria dia seguinte. Leu e respondeu cada uma das mensagens recebidas naquela semana. Algumas já quase esquecidas, como foram as outras, da semana anterior. Eram profissionais. Mas estava tão emotivo que as lia como se lesse cartas de amor

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5

Seus olhos nos meus olhos e eu mergulhada nos pelos que nascem da pálpebra que esconde o seu desconforto em se ver fitado assim. Com a ponta dos dedos toco o que me parece pluma fazendo, da pluma, um você inteiro. Você, pluma colada na pálpebra, penteia meus dedos, contornando….

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3

Deitado na areia, ele contava os grãos que tocavam suas costas nuas. Seu corpo queimava enquanto contava, um a um, numa soma infinita. Quatrocentos mil duzentos e noventa e três no ombro direito. Trezentos mil quinhentos e vinte e um no esquerdo. Pequenos grãos que tatuavam em suas costas as arestas angulares esculpidas pelo tempo. Quando acabava a contagem, estendia os braços antes cruzados no peito e tocava, agora com as mãos, essas pequenas pedrinhas que cobriam seus dedos.

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6

Bebia a água de coco só para brincar com o canudinho. Gostava de procurar estórias nas paisagens que via pela abertura circular. Um pedaço de árvore. Primeiro, o verde da folha, depois, o caule. Caule, caule e a areia. Paisagem interrompida pela impaciência da vista monocular. 

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